Rico de Souza
Quando você começou a surfar e qual a principal diferença entre o surfe na época em que pegou suas primeiras ondas e atualmente?
Em 1964 tive a minha primeira prancha de madeira e em 1966 ganhei minha primeira prancha de fibra de vidro e surfava na famosa praia de São Conrado. Nesta época o surfe era romântico. Acredito que havia cerca de 100 a 200 surfistas, todos se conheciam e tínhamos o mesmo nível cultural. Nos anos 60 e início dos 70, muitas praias foram descobertas. Nessa época, eram poucas as informações que tínhamos do surfe internacional. A revista Surfer Magazine era a única fonte para ficarmos atualizados. Tudo mudou, o surfe cresceu, somos quase 2 milhões de surfistas em todo Brasil, há várias revistas especializadas, jornais e sites trazendo informações em tempo real e promovendo a globalização do mundo do surfe. Hoje, os surfistas podem viver como profissionais, viver do esporte. Temos um vasto campo de trabalho e muitas oportunidades no mercado do surfe. Com todo esse crescimento, o esporte se popularizou mas perdeu o romantismo e companheirismo dos anos 70.
Qual o melhor lugar em que você já surfou?
Sem duvida o Havaí, pois reúne, além das melhores ondas do planeta, oportunidade para se surfar em ondas pequenas, médias e gigantes. O Havaí é tropical, a água é quente, realmente um paraíso. Minha praia preferida lá é Sunset Beach.
Um esporte como o surfe apresenta alguns perigos para o praticante, você já passou algum sufoco dentro d'água?
O surfe é um esporte muito seguro se você aprender em uma escola de surfe, porque assim você terá segurança e rapidez com instrutores que já possuem experiência. É muito importante aprender com o equipamento correto porque assim você não estará exposto aos perigos, correntezas e aprenderá a filosofia correta do surfe. Como já falei, gosto do Havaí e gosto de ondas grandes. Quando estamos buscando superar os nossos limites, com certeza passamos por algumas dificuldades. Se o mar está grande, por exemplo em 1988 quando eu estava surfando na praia de Laneiakea em um dia que as ondas estavam entre 15 a 18 pés com muita correnteza e condições adversas, cheguei a ficar quase duas horas tentando sair do mar quando perdi minha prancha. Tive que manter a calma, usar a inteligência e contar com a sorte de Deus me ajudar. Mesmo assim, só consegui sair do mar à noite. Foi uma experiência horrível e inesquecível.
O surfe tem uma enorme procura por crianças e adolescentes. Qual é a orientação que você dá para quem está começando o esporte agora?
O ideal é procurar uma Escola de Surfe. Manter a regularidade nos treinos de aprendizagem e usar o equipamento correto também é muito importante. É bom evitar aglomeração de surfistas iniciantes, pois é quando acontecem os pequenos acidentes com pranchas batendo nos outros. Se você aprender a surfar com supervisão de um instrutor e sem estar no crowd você estará aprendendo rápido e de forma segura.
Quais as características de um bom surfista? A partir de que idade você percebe se uma criança tem talento?
Um bom surfista possui várias características importantes. Surfa com muita velocidade, manobra na parte mais crítica da onda, troca de direção com velocidade e rapidamente e aproveita a onda em toda a sua extensão. Desde o início já se pode perceber o talento de um surfista através do seu estilo, da sua colocação na onda e também na segurança de suas manobras. O posicionamento correto na prancha sem se desequilibrar mostra sua coordenação motora.
Qual a maior diferença entre o surfe brasileiro e o surfe lá de fora?
O surfe no Brasil cresce numa velocidade incrível. A nova geração tem muitos talentos e em poucos anos de surfe já atingiu um nível de competição bem alto. Devido à vasta costa brasileira com água quente e clima tropical, o surfe continuará crescendo. A oportunidade de bons patrocínios e de se viver do esporte ainda é restrita. Já no exterior, o mercado é muito rico e propício a bons patrocínios aos surfistas de elite.
O que você acha do Circuito Petrobras de Surfe Feminino ter, assim como o Petrobras Longboard Classic, uma ligação direta com campanhas sociais e ambientais? Qual a importância disso para o esporte?
É muito importante o Petrobras de Surfe Feminino e o Petrobras Longboard Classic fazerem campanhas sociais e ambientais, pois desta forma podemos transmitir uma consciência para milhares de surfistas com o propósito de fazer um Brasil melhor. É também uma forma de plantarmos uma semente mostrando para outros esportes e para a sociedade a importância de se ter consciência ambiental e social.
E o que você espera do Petrobras Longboard Classic?
Espero que se repita o sucesso do ano passado, quando contamos com ondas boas na etapa carioca na praia da Macumba, e também em Santos, no Quebra-Mar. Nas duas etapas tivemos um excelente retorno da mídia para o nosso patrocinador, a Petrobras. Outro aspecto importante é que todos os atletas ficaram felizes, desde o profissional que desfrutou da maior premiação em dinheiro do circuito brasileiro de longboard profissional, até os amadores que pegaram boas ondas e confraternizaram com os amigos surfistas. Em relação ao aspecto social, faremos uma oficina de capacitação profissional, ensinando os adolescentes a consertar pranchas, para que, assim, possam viver do surfe. Em relação ao projeto de meio ambiente, daremos continuidade ao plantio de vegetação nativa de 1500 m2 na praia da Macumba, assim como a campanha de arrecadação de alimentos para as obras sociais da Prefeitura do Rio de Janeiro, que apóia o nosso projeto. Aproveitando a oportunidade, quero agradecer à Petrobras, à Oi e à Prefeitura do Rio, que estão me dando a oportunidade de realizar a maior festa do longboard profissional.
Boas ondas e aloha,
Rico de Souza