Desafio Prêmio Petrobras de Tecnologia

Tecnologia de Exploração

Chat

Henrique Luiz de Barros Penteado
14 de maio de 2008

Henrique é geólogo do Centro de Pesquisas da Petrobras (Cenpes). Trabalhou como geólogo de operações de poço na Amazônia. Atuou em projetos de Geoquímica Orgânica aplicada à Exploração de Petróleo e de Modelagens Numéricas de Sistemas Petrolíferos em bacias onde a Petrobras atua no Brasil e no exterior.

Graduado em Geologia pela USP, fez mestrado na UFRJ no tema de Estratigrafia e Sedimentologia. Desde 2006, coordena o Programa Tecnológico de Modelagem de Bacias, ligado à área de Exploração da companhia.

Obteve o título de doutor pela Université de Paris VI em 1999, com tese sobre modelagem de sistemas petrolíferos na bacia do Recôncavo. Possui diversos artigos publicados em revistas técnicas nacionais e estrangeiras.

  • Henrique Penteado: Boa tarde a todos!

  • Carolina diz: Quais os efeitos negativos que um derramamento de petróleo provocaria no costão rochoso?

  • Henrique Penteado: Carolina, a pergunta não está diretamente relacionada à exploração de petróleo, mas tem importância do ponto de vista ambiental, principalmente. Em relação aos efeitos do derrame sobre as rochas do costão podemos dizer que é relativamente pequeno, uma vez que a ação das ondas e das marés acaba removendo as incrustações em tempos curtos. No entanto, o maior efeito negativo se refere ao impacto sobre a vida animal, que prolifera sobre o costão, principalmente crustáceos e aves. Estes organismos podem ser contaminados e eventualmente morrerem por efeito de intoxicação.

  • Marcos Queiroz diz: Quais os grandes desafios da exploração de reservatórios em águas ultraprofundas e em camada de pré-sal, como o recém-descoberto Campo de Tupi ? É viável técnica e economicamente as atividades nessas áreas?

  • Henrique Penteado: Marcos, os principais desafios para exploração em águas ultraprofundas e em horizontes pré-sal são os seguintes: 1) imageamento sísmico dos horizontes profundos que podem eventualmente servir de armadilhas para o petróleo; 2) identificação dos possíveis níveis reservatórios e estimativa pré-perfuração de suas propriedades como porosidade e permeabilidade. Existem outros desafios associados à perfuração, como atravessar a camada de sal, mantendo a estabilidade do poço, e o controle de pressão de poros. Mesmo com todos estes desafios, com os volumes que se consegue estimar antes da perfuração, e aqueles constatados nas acumulações de Tupi e Carioca, a exploração em águas ultraprofundas e no pré-sal é muito interessante do ponto de vista econômico. O volume das reservas compensa largamente os investimentos necessários.

  • Barbara Prado diz: Gostaria de saber se há medições da difração das ondas no processo da sísmica durante a prospecção de poços offshore e quais são realizados?

  • Henrique Penteado: Bárbara, apesar de não ser especialista em geofísica, posso dizer que a exploração de petróleo utiliza basicamente dois métodos de sísmica. Esses métodos são a sísmica de reflexão, em que se mede o tempo de chegada à superfície das ondas sísmicas refletidas nos horizontes geológicos, e a sísmica de refração. A difração é um dos fenômenos físicos que permite a propagação de ondas, cuja reflexão ou refração é empregada nos métodos citados. Até onde eu saiba, não são feitas medidas diretas da difração.

  • Beto Barbosa diz: É verdade que umas das maiores reservas de petróleo do mundo jamais encontrada esta no Piauí?

  • Henrique Penteado: Beto, até o momento, nossos trabalhos de exploração não indicaram a existência de acumulações comerciais de petróleo no Piauí. Apesar deste estado se situar em grande parte sobre a bacia sedimentar do Parnaíba, esta, até agora, não se mostrou interessante economicamente para o petróleo.

  • Henrique Novais diz: Estudo Tecnologia de Petróleo e Gás na UVV e gostaria de saber se pode haver relação entre a extração de petróleo e terremotos, já que estes são extraídos do interior da terra e em seu lugar são depositadas outras substâncias de diferentes densidades. Grato pela atenção.

  • Henrique Penteado: Henrique, creio que podemos começar pela noção de como se encontra o petróleo em sub-superfície. O petróleo nos campos de produção se encontra preenchendo espaço poroso entre os grãos de rochas que possuem boa permeabilidade. Durante o processo de produção, esse óleo é gradualmente drenado e substituído por água. Desta forma, não se cria espaço vazio em profundidade. Mesmo a altas taxas de produção, a porosidade não variará e o espaço poroso continuará cheio de água, o que impedirá o colapso da rocha. Ao contrário da imagem popular, os campos de petróleo não são grandes cavernas preenchidas por óleo.
    Assim, a probabilidade da produção de petróleo induzir terremotos é muito pequena, havendo possibilidade apenas de pequenas acomodações de terreno.

  • Henrique diz: Qual a chance de conseguirmos achar petróleo em terras brasileiras, digo em solo brasileiro e não em águas. Vocês têm algum estudo sobre isso?

  • Henrique Penteado: Henrique, atualmente temos descobertas de petróleo em terra nas bacias do Recôncavo Baiano, Sergipe-Alagoas, Potiguar (RN), Espírito Santo e Solimões (AM). Desta forma, já existe produção comercial em terra, e o nosso desafio hoje é expandi-la nessas bacias e em outras, como as do Paraná e Amazonas. No entanto, a grande vocação para volumes consideráveis de produção se encontra nas bacias marítimas, como as de Campos, Santos e Espírito Santo.

  • Walter diz: Há tecnologia consolidada para profundidades abissais?

  • Henrique Penteado: Walter, hoje em dia temos condições de perfurar e avaliar acumulações de petróleo situadas a profundidades de cerca de 3.000 metros de lâmina d'água. Para produção, temos ainda alguns desafios tecnológicos, apesar de haver um bom número de opções para a produção para campos como Tupi e Carioca. Existe um grupo de trabalho na Petrobras que está investigando qual a melhor alternativa para essa área do ponto de vista econômico, ambiental e de segurança. As alternativas se referem a tipos de plataforma, vias de escoamento e armazenamento de petróleo.

  • Walter diz: Uma das soluções científicas é a estocagem de gases do efeito estufa em subsolo onde foi retirado o petróleo, então existe espaço na porosidade das rochas?

  • Henrique Penteado: Walter, a injeção de CO2 é uma das possibilidades que está sendo investigada como alternativa para reforçar os aspectos econômicos das novas descobertas. A principal dificuldade seria a de transportar o CO2 até os poços de produção em águas ultraprofundas. Independentemente disso, se o CO2 for injetado com pressão suficiente, ele deslocará o óleo e o gás presente no espaço poroso, substituindo a ambos.

  • piero geologia ufpr diz: Boa tarde, Henrique! Eu gostaria de saber qual a sua análise sobre a ocorrência de petróleo na bacia do Paraná, mais precisamente no município de Joaquim Tavora-PR?

  • Henrique Penteado: Piero, a bacia do Paraná possui uma das melhores rochas geradoras de petróleo, que é a formação Irati. O problema na bacia do Paraná é que essa formação se encontra matura (soterrada) para geração de petróleo em áreas relativamente restritas. Nas poucas acumulações que encontramos no Paraná, as rochas vulcânicas tiveram papel importante como fonte de calor para a geração do óleo a partir da formação Irati. Não sei precisamente onde se localiza o município de Joaquim Távora, mas poderia dizer que o desafio exploratório mencionado acima também se aplica a essa região.

  • serginho diz: Existe algum estudo técnico que confirme as reservas de petróleo na Bacia de Santos se estendem efetivamente até Santa Catarina (por causa dessa camada do pré-sal que tem as mesmas características dos poços já perfurados com êxito) ?

  • Henrique Penteado: Serginho, as descobertas do pré-sal feitas até o momento cobrem porções da Bacia de Santos em frente ao litoral dos estados do Rio de Janeiro e São Paulo. Há outras acumulações semelhantes no tipo de objetivo exploratório nas Bacias de Campos e Espírito Santo. Existe potencial para extensão de acumulações mais para o sul, mas tais prospectos ainda devem ser mapeados e perfurados para uma avaliação mais precisa.

  • eng. ambiental diz: Qual o campo exato para engenharia ambiental na área de exploração?

  • Henrique Penteado: Eng. Ambiental, a principal contribuição da sua categoria profissional nos estágios iniciais da exploração petrolífera em uma área consiste em realizar estudos de impacto ambiental. Estes estudos, requeridos pelo Ibama, envolvem os impactos de atividades como a sísmica e a perfuração de poços sobre os ecossistemas locais.

  • wagner-DF diz: A Venezuela, cujo território está quase que totalmente localizado na bacia amazônica, possui uma das maiores reservas de petróleo conhecido do planeta. Há estudos que indiquem a presença de jazidas de petróleo no subsolo da Amazônia brasileira e qual seu potencial econômico?

  • Henrique Penteado: Wagner, apesar da proximidade geográfica, as bacias produtoras na Venezuela não estão no mesmo contexto geológico das bacias da Amazônia brasileira. Na Venezuela, as principais rochas geradoras são do Cretáceo, enquanto que nas bacias do Solimões e do Amazonas, as geradoras são do Devoniano (Paleozóico), ou seja, muito mais antigas. As histórias geológicas das bacias também são muito diferentes, sendo o caso venezuelano mais favorável para geração de volumes significativos de petróleo. Na Amazônia brasileira temos produção de petróleo e gás natural na região do rio Urucu, e outras descobertas de gás na área do rio Juruá.

  • Walter diz: O Brasil só possui petróleo pesado e maduro, ou podemos ter o leve?

  • Henrique Penteado: Walter, ironicamente as primeiras descobertas de petróleo no Brasil, nas bacias do Recôncavo Baiano e de Sergipe-Alagoas, foram de óleo leve, que continuam sendo produzidas até hoje. Os óleos pesados estão associados principalmente a alguns campos na bacia de Campos, que é a maior produtora nacional. No entanto, existem óleos leves sendo produzidos tanto nestas descobertas mais antigas, quanto em áreas novas na bacia do Espírito Santo (campo de Golfinho) e de Santos (campos de Mexilhão, Lagosta, Tupi, etc.).

  • Alex diz: Quais os achados potenciais existentes além dos campos TUPI e CARIOCA? Algo no litoral do Espírito Santo? Esse novos achados forneceram informações para avaliações de outros campos existentes?

  • Henrique Penteado: Alex, no litoral do Espírito Santo podemos citar as acumulações de óleo leve de Golfinho, Cangoá, Peroá, Canapu, entre outras. Essas descobertas permitiram a elaboração de modelos geológicos para acumulação de petróleo que deverão ser aplicados em prospectos em áreas mais profundas da bacia do Espírito Santo, bem como em bacias tanto ao norte (Cumuruxatiba e Jequitinhonha), quanto ao sul (Campos e Santos).

  • wagner-DF diz: Um dos pontos do ciclo de exploração do petróleo é o exaurimento da jazida explorada. Já houve no Brasil esse tipo de ocorrência? Está prevista essa ocorrência num futuro próximo nas jazidas hoje exploradas? Qual o impacto sobre o volume produzido e a crescente demanda interna?

  • Henrique Penteado: Wagner, alguns campos de petróleo mais antigos, descobertos principalmente em terra, já estão em fase de produção declinante. Esse processo já está se iniciando, ainda que devagar, em alguns campos da bacia de Campos também. O fundamental para a exploração é manter uma alta proporção das reservas em relação ao consumo anual. Em outras palavras, a exploração de petróleo deve descobrir pelo menos aquilo que já consumido sob a forma de produção no ano anterior. Nesse aspecto, estamos muito bem no Brasil, pois as reservas descobertas e a velocidade com que elas entram em produção superam em muito o declínio da produção em campos mais antigos.

  • Osmar diz: Boa tarde! Moro na metade sul do RS e escuta-se boatos por aqui, que na região de Pelotas, existe Petróleo e Gás, e que a Petrobras estuda a possibilidade de exploração a curto prazo. O quanto disso é verdade? A Petrobras realiza atualmente algum trabalho nessa região com objetivo de extrair petróleo e/ou gás a curto ou médio prazo?

  • Henrique Penteado: Osmar, na porção terrestre do Rio Grande do Sul, que está parcialmente situada sobre a bacia do Paraná, as perspectivas de descobertas nos parecem relativamente fracas. Porém, na porção marítima existe a bacia de Pelotas que guarda várias semelhanças com importantes bacias produtoras como as do delta do Niger e do Mississipi. Até o momento, não tivemos êxito na descoberta de acumulações nessa bacia, apesar da atividade exploratória continuar. Além do potencial de acumulações convencionais de petróleo, a bacia de Pelotas contém enormes acumulações de uma fonte não convencional, que são os hidratos de gás. Por enquanto ainda não temos tecnologia para produzir esse recurso potencial, mas vários projetos de pesquisa em andamento têm como objetivo avaliar e definir as condições de produção dos hidratos de gás.

  • Phelipe diz: À medida que novas reservas brasileiras de petróleo vão sendo descobertas e as já existentes no mundo vão se esgotando, quais as chances reais de o Brasil se tornar uma potência petrolífera ou até mesmo líder na produção mundial?

  • Henrique Penteado: Phelipe, ainda que passe desapercebido pela imprensa, o Brasil já exporta petróleo. As novas descobertas ultrapassam bastante as necessidades de consumo no Brasil projetadas para os próximos anos. Mesmo levando em conta o ciclo de tempo necessário entre uma descoberta e a produção comercial, as descobertas atuais nos garantem uma produção que superará consideravelmente o consumo nacional. Assim, o Brasil deve reforçar a posição de exportador de petróleo, cabendo uma definição da política nacional quanto ao volume adequado de exportação e a gestão das reservas.

  • Edson diz: Boa tarde. Gostaria de saber qual seria a forma mais viável para escoar o gás eventualmente retirado de um poço situado a grande distância da costa. A melhor forma seria um gasoduto ou a construção de uma unidade para liquefazer o gás e transportá-lo por navios ?

  • Henrique Penteado: Edson, do ponto de vista técnico, as duas soluções são viáveis. A definição de qual delas será aplicada às novas acumulações de óleo leve e gás dependerá de uma análise conjunta de fatores econômicos, ambientais e de segurança. Além disso, deve-se considerar a posição geográfica da acumulação (profundidade, distância da costa) em relação aos mercados consumidores, e sua infra-estrutura de escoamento da produção.

  • Rachel Eng.dPetroleo diz: Sabemos que o Brasil não é auto-suficiente em Petróleo pelo fato de o Petróleo Brasileiro ser tão 'pesado'. Com a nova Descoberta (se realmente tiver) será que há alguma possibilidade desses poços serem mais 'leves'?

  • Henrique Penteado: Rachel, realmente várias das novas descobertas são de óleo leve. Isso abre a perspectiva de gradualmente substituirmos o óleo pesado nacional utilizado nas refinarias, pelo óleo leve recentemente descoberto. Para isso, será necessário que estas acumulações comecem a entrar em produção. O que ocorrerá em alguns anos.

  • NOTA: A auto-suficiência do Brasil em petróleo foi atingida em 2006. Saiba mais  .

  • Beto Zanarella diz: A produção de petróleo na bacia do Rio Urucu (AM) é a ponta de uma grande área, ainda encoberta, ou é limitada?

  • Henrique Penteado: Beto, até o momento não conhecemos extensões próximas ao campo de gás e óleo leve do rio Urucu. Existem grandes acumulações de gás na área do rio Juruá que não estão em produção devido a grande distância dos mercados consumidores, bem como à falta de infra-estrutura de transporte. De qualquer modo, a Petrobras segue explorando em blocos nas adjacências do rio Urucu.

  • Henrique Penteado: Um grande abraço a todos. Foi um prazer participar deste chat com vocês. Até a próxima!